Conversa com Ualid Rabah realizada durante palestra do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UNILA. Temática: Questão Palestina e Guerras no Oriente Médio.
Canal Visões de Mundo (Mônica Nasser Dornelles, jornalista internacionalista)
Sobre: Ualid Rabah é filho de pais palestinos, empresário, pai e atual presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL). Ualid atua na luta permanente pelo povo palestino desde 1984, no movimento estudantil quando jovem, onde começou na militância, assim como na luta antirracista como conselheiro no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPI) de 2008 a 2016.
1. Fale sobre a importância destes debates no sentido de esclarecimento, de conhecimento e na contramão de um jornalismo que não se preocupa em mostrar os vários lados dos conflitos no Oriente Médio. Um trabalho que você dedica a sua vida.
Primeiro, há algo novo e de suma importância no Brasil e no mundo, especialmente no meio universitário, vale dizer, acadêmico e intelectual, de geração do conhecimento e da crítica: acabou o “doisladismo”.
Explico. Até tempos atrás, em todos os ambientes, era impossível falar da Palestina e dos crimes de lesa-humanidade ali praticados sem ouvir o “outro lado”. Era preciso um debate com os “dois lados”, ou seja, a vítima de genocídio só poderia defender-se deste crime, expor ao mundo esta verdade, se estivesse ao seu lado, em situação equivalente, isto é, de também expor sua “verdade”, o genocida, “israel”, ou os “judeus” (um sionista que diz falando em nome de “israel” porque este regime fala em nome de todos os judeus). Seria como somente podermos debater o nazismo se um nazista fosse convidado para esta mesa e haver um “debate” no qual ele pudesse defender o nazismo. Ou um defensor do regime segregacionista branco na África do Sul ter presença obrigatória para uma mesa sobre Apartheid. Ou, ainda, ser obrigatória a presença de algum incomodado com a Lei Áurea para se debater a escravidão.
Pois “israel” e o sionismo eram normalizados no meio acadêmico e em geral como os únicos criminosos que não poderiam ser acusados de seus crimes, até porque sequer crimes talvez fossem, razão pela qual seria obrigatória sua presença para debater o seu apartheid, seu supremacismo, seu genocídio, sua política colonial e sua limpeza étnica. Era um privilégio somente a “israel” concedido, qual seja, o de ter licença para tais práticas e, em caso de denúncia, ter o direito (obrigatório) de estar ao lado do acusador para se defender, senão mais, inverter a acusação e dar a vítima como a criminosa.
Parece que isso acabou e este fato está incomodando os sionistas.
Então temos um novo paradigma nas universidades brasileiras e do mundo. Por isso a tentativa de criminalizar as vozes que denunciam o sionismo e “israel”. Por isso a necessidade de fazer a falsa equivalência entre judaísmo e sionismo e tornar a denúncia do sionismo um ato “antissemita”.
E é isso o que permitiu, como nunca antes, que a causa palestina passe a ser o principal debate acadêmico em todo o mundo. E não apenas interno, porque agora, ineditamente, pelo menos no Brasil, a causa palestina é legitimada com a chamada ao debate de sua representação, no caso a FEPAL, a Federação Árabe Palestina do Brasil, que tenho orgulho de presidir.
E a causa palestina estar no debate crítico e livre universitário significa quebrar o monopólio do sionismo na questão. Significa que mestrados e doutorados não serão viciados pela visão sionista. Que as instâncias acadêmicas, especialmente as dedicadas a estes estudos, não serão mais instrumentos sionistas para produção de falso conhecimento, ideologizado para blindar “israel” e promover a criminalização dos palestinos em particular e dos árabes em geral, agora já extrapolando para os quase 2 bilhões de muçulmanos em todo o mundo.
E o que fazem os veículos de comunicação hegemônicos. Não apenas seguem na falsificação de tudo que concerne à Palestina como, ademais, sequer um “doisladismo” mais ou menos sadio, isto é, ouvir os palestinos, praticam. Ouvem apenas os que promovem o genocídio em Gaza. Justificam o genocídio. Criminalizam as vítimas do genocídio. Na prática, participam ativamente do genocídio porque promovem propaganda de guerra ao invés de jornalismo. Bom lembrar que propaganda de guerra é crime pelo Direito Internacional.
E já que citou o quando tenho dedicado minha vida à causa palestina, milito nela há 42 anos. Tenho sempre recordado de uma passagem nestes 42 anos, o que farei novamente. Ao término do 10° Congresso da FEPAL, em final de abril de 2019, na cidade de Porto Alegre, com a nova direção eleita e eu seu presidente, em nossa primeira reunião disse o seguinte: que nossa missão seria fazer com que jamais se falasse de Palestina ou de mundo árabe sem se chamar palestinos para falarem e sua instituição, a FEPAL, no centro desta locução. Meu orgulho é saber que isso aconteceu. Se tivesse que me entender como buscar cumprir uma missão de vida, a partir da qual a existência não é mais necessária, esta estaria atingida. Estou muito feliz por isso.
2.Qual a importância e simbolismo de eventos assim serem realizados na região trinacional, na UNILA, local que concentra a segunda maior comunidade árabe islâmica do Brasil e que faz fronteira com o PARAGUAI que tem uma política alinhada com os EUA? Bem como, a Argentina?
Primeiro, quanto à UNILA em si, trata-se de um projeto revolucionário, porque é uma espécie de Escola das Américas às avessas daquela outra, com este nome, que serviu aos EUA e seus aliados, dentre eles “israel”, treinarem torturadores a serviço de entreguistas golpistas em todo o continente, que não apenas suprimiram a democracia e as liberdades e sufocaram os direitos humanos mais básicos, mas atrasaram econômica e socialmente nossos países por décadas.
A UNILA é a reunião de professores e alunos de todo o contingente justamente para gerar conhecimento crítico e capacidade política de gerar mais soberania, aprofundar a democracia e implantar novos paradigmas de desenvolvimento econômico e social, que eleve os padrões de vida da nossa gente e que insira nossos países numa nova ordem, de trocas mais justas, desenvolvimento científico e tecnológico libertário e, acima de tudo, que nos coloque numa nova era anti-imperialista e anticolonial. E a liderança do Brasil neste processo é uma marca importante, razão pela qual ser nossa esta iniciativa e estar sediada em nosso país é emblemático.
E esta iniciativa estar – e se dar – na Região Trinacional diz muito. Afinal, esta região, estratégica para o Brasil e para a América Latina e para o mundo foi tornada alvo do imperialismo, dos EUA e de “israel” especialmente, com a invenção até mesmo do termo “Tríplice Fronteira” para designá-la. E foi inventado por estes dois atores hostis que há uma demografia “terrorista”, a árabe e muçulmana, historicamente instalada na região e que é uma das principais razões de sua prosperidade econômica.
EUA e “israel” tentam, desde aquele atentado de falsa bandeira em Nova York, o afamado 11 de setembro, até hoje mal explicado (nenhum dos alegadamente condutores dos aviões dos atentados é Iraquiano ou afegão, e sim sauditas em sua maior, mas são Afeganistão e Iraque os atacados e ocupados e destruídos), tornar esta região brasileira algo como parte, ideológica e propagandisticamente, estendida do Oriente Médio e, logo, aplicar aqui o mesmo que aplicam lá. A propaganda de guerra contra esta região, a Região Trinacional, é idêntica. É de esperar que, dado que o objetivo é o mesmo, agressão bélica esteja no contexto. E os árabes criminalizados visa criminalizar a região, o Brasil e os demais países e, assim, intervir militarmente.
Isso já está acontecendo com uma nova base militar dos EUA no Paraguai, recentemente aprovada pelo Senado deste país. A Argentina já está sendo subordinada aos EUA em quase todos os aspectos de toda sua soberania. Logo, ambos os países estão sendo transformados pelos EUA como bases suas, plataformas para eventual hostilidade bélica contra o Brasil.
Se é assim, Foz do Iguaçu e a Região Trinacional se tornam uma espécie de centro das ações contra esta trama contra a soberania nacional brasileira. Logo, e neste território brasileiro que devem se contratar atividades soberanistas brasileiras e continentais, com a UNILA como o grande tanque pensante brasileiro neste sentido.
3. Ainda neste contexto, eu gostaria que falasse sobre a questão palestina, sobre “soberania” dos Estados, seja no Oriente Médio ou no Brasil e num momento tão conturbado no mundo em que buscamos a paz mundial e o respeito à soberania dos Estados, das diferentes culturas, credos e religiões. Ou seja, o respeito ao diferente?
O que vivemos hoje no Oriente Médio é a superação, o enterro, pelos EUA especialmente, ou pelo ocidente coletivo, ocidente político liderado pelos EUA, do Direito Internacional e de toda a construção deste Direito Internacional.
Desde pelo menos Westphalen 1600, de desenho da soberania dos estados, das soberanias nacionais, bem como, da ideia de que fronteiras nacionais não devem ser construídas sobre os pilares da identidade exclusivamente religiosa. Então, se nós estamos vendo tudo que foi construído neste período todo sendo relativizado, a ONU não é mais referência, às convenções internacionais não são mais referência, os tratados. Quer dizer que os EUA estão abrindo mão da possibilidade de os países terem o direito à autodeterminação e a soberania nacional. E isto está sendo testado no Oriente Médio.
E por qual motivo? Primeiro, porque Israel não obedece às fronteiras fixas, então já há um modelo de estado em expansão permanente. Segundo, desde os ingleses, e os EUA herdam, o Oriente Médio é desenhado para não obedecer a ideia de soberania nacional dos povos daquela região, ainda que sob fronteiras, desenhadas por eles mesmos, artificialmente. Os ingleses desenharam para eles mesmos, no período colonial, e implantaram Israel para ser parte disso e não o dono disso. Um espaço vital. Este espaço vai do Mar Vermelho ao Golfo Pérsico, do Estreito de Ormuz ao canal de Suez e, claro, do complexo de água doce do Rio Nilo ao complexo de água doce do Tigre e Eufrates.
Não por acaso, o embaixador dos EUA em Tel Aviv, poucos dias antes da segunda onda de ataques ao Irã, disse que os EUA e o Ocidente não deveriam se opôr à eventual realização do “Grande Israel”. Quer dizer, a expansão do projeto sionista para toda esta região, do Rio Nilo ao Tigre Eufrates. Ou seja, toda Palestina, todo Líbano, toda Jordânia, quase toda Síria, quase todo Iraque, parte do kuwait, parte da Turquia, até ¼ do território Saudita, uma parte grande do Egito, toda Península do Sinai indo até o Nilo, sua margem oriental até a fronteira do Egito com o Sudão. Só que esta grande Israel não pode se realizar como uma entidade judaica, não há população judaica no mundo para se compor como demografia para esta geografia tomada. Este espaço vital é na verdade britânico e agora, estadunidense. Apenas com o apelido de “Grande Israel”.
E por que isto? Há um mito religioso para isto, mas Israel será um pequeno território, dentro deste grande espaço vital, hoje a ser, estadunidense. E se isto triunfar no Oriente Médio, se enterra o Direito Internacional, as Convenções, a própria ONU e se inaugura a possibilidade, de pela força, desenhar grandes espaços vitais, inclusive com limpezas étnicas. Já que, se o modelo palestino estiver agora sendo expandido para o Líbano, como está, já foi expandido em certa medida para a Síria, com grande expulsão da população síria que até agora não retornou.
O mesmo foi aplicado para o Iraque onde a população não retornou. Estamos diante de etapas de limpeza étnica que agora podem estar sendo testadas no Líbano, em uma grande limpeza étnica, no seu Sul e automaticamente isto será implantado agora com ocupação de amplo espectro e realização do grande espaço vital em grande espectro pelos EUA. Isto significa que este modelo pode ser implantado em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, para tomada da Amazônia, na Bacia do Prata, Bacia do Rio Paraná com o complexo do Iguaçu. Ou seja, justamente na região trinacional, para tomar aquíferos subterrâneos de superfície e também uma região estratégica, de mar e de riquezas.
4. Fale rapidamente sobre a escalada das tensões envolvendo EUA/Israel e o Irã, a expansão do Estado Sionista de Israel e a luta pela soberania Palestina em um cenário marcado por colonialismo, apartheid e genocídio em Gaza, na Cisjordânia e região.
Falar nesse momento de agressão ao Irã, significa provavelmente, a necessidade de recuar, no mínimo, a 1953. O Irã era parte integrante desse grande espaço vital desenhado pelos britânicos para controle do petróleo, que passaria, ele seria estendido até o Azerbaijão, Bakú, isso necessariamente envolve todo o Golfo Pérsico, todo o Irã e a região também do Cáspio e do Mar Negro. Esse desenho os ingleses sempre tiveram.
Acontece que, em 1951, chega ao poder um governo nacionalista, liberal e democrático, comandado por Mohammed Mossadegh, que, dentre outras coisas, nacionaliza o petróleo iraniano e dá um golpe de morte na tentativa de controle e monopólio colonial dos britânicos sobre o petróleo do Irã. Em 1953, com a Operação Ajax, que tem seu ápice em agosto de 1953, com ajuda dos Estados Unidos, a Operação Ajax é basicamente estadunidense, derrubam esse governo nacionalista e implantam num governo totalitário, despótico, sanguinário, o Shah Mohamed Reza Pahlavi. Acontece que, e aí, logicamente, o Irã se torna o grande ativo estratégico dos Estados Unidos.
Acontece que esse governo despótico, totalitário e sanguinário é derrubado por uma revolução, fortemente nacionalista, a iraniana de 1979. O que os Estados Unidos perceberam já em 1978, sob Jimmy Carter. Percebem que isso está acontecendo desde 1978 e imediatamente forjam as pressas do Acordo de Camp David, que sela a paz entre Egito e Israel, devolvendo o território com soberania relativa sobre o Sinai pelo Egito. E com isso retira o Egito do campo anti-Israel, do Oriente Médio, anti-Estados Unidos e anti-Ocidente e, de certo modo, malgrado as posições tíbias do Anwar Sadat, anticolonial e anti-imperialista.
Porque os Estados Unidos não poderiam conviver com as duas grandes potências da região, uma delas controlando o Mar Vermelho, controlando o complexo Nilo e controlando o canal de Suez com o Egito, adversária, ao mesmo tempo que o Irã se torna um polo adversário, controlando o complexo Tigre e Eufrates, de certo modo, geopoliticamente, controlando o Estreito de Hormuz e controlando o Golfo Pérsico. Seria impensável para os Estados Unidos retirar o Egito desta possibilidade, aceitando naquele momento o inevitável, perder o Irã. Só que imediatamente eles implantaram, criando uma guerra artificial entre Iraque e Irã, em 1980.
E criam, implantam a Doutrina Carter, que torna o petróleo daquela região estratégico e extensão dos interesses nacionais estadunidenses e que poderia, para mantê-los sob os interesses nacionais e controle estadunidense, exigir o uso de armas, portanto, de guerras. Isso não estava na doutrina estadunidense, surge com a Doutrina Carter, que utiliza a presença soviética no Afeganistão como um dos pretextos alargados deste novo conceito doutrinário da Doutrina Carter. E acontece também algo novo.
Israel é elevado estrategicamente e Israel passa a não precisar mais da intervenção externa e episódica dos Estados Unidos, como aconteceu em 67 e em 73. Os Estados Unidos passam a ser os donos da segurança na região. E com isso, é possível, com este quadro geral, o Egito esteja fora da luta anticolonial e anti-Israel.
Irã e Iraque implicados numa guerra fratricida que durou oito anos, consumiu um milhão de vidas e 600 bilhões de dólares da economia dos dois países. E ao mesmo tempo, claro, o Irã sob bloqueio ocidental liderado pelos Estados Unidos. É possível a invasão do Líbano, em 82.
Sem este quadro, a invasão do Líbano em 82 para desalojar a ULP e, consequentemente, retirar a guerrilha palestina pela primeira vez da continuidade territorial da Palestina histórica, foi possível. O que nós vemos hoje é exatamente a continuidade deste processo, com uma variante. Os Estados Unidos poderem perder estrategicamente, já que pela primeira vez em 60 anos, caças estadunidenses são abatidos pelo país hostilizado, o Irã.
Pela primeira vez na história, os porta-aviões estadunidenses não puderam ficar perto da região em conflito ou sob conflito provocado pelos Estados Unidos, por medo de serem afundados. E as bases estadunidenses da região são atingidas. Centros de inteligência estadunidenses da região são atingidos e, pela primeira vez, Israel é atingido estrategicamente por vetores, mísseis, que alcançam Israel partidos de 1.600 km de distância.
Isso é inédito. Israel perde a sua capacidade dissuasiva apresentada como Indefectível. Pela primeira vez, portanto, o pilar da invencibilidade de Israel é destruído.
E isso se soma ao pilar anterior da moralidade de Israel diante do que aconteceu em Gaza. Cai a máscara do sionismo. Então, a de grande vítima da humanidade caiu com Gaza e a de único lugar do mundo de exército invencível, inclusive na região, frente aos atores da região, cai também.
Então, é diante destes elementos estratégicos que nós estamos e precisamos analisar em perspectiva histórica, recuando até no mínimo 53 e entendendo o momento atual como um momento de mudança estratégica, em favor de todos os atores geopolíticos anti-hegemônicos que visam criar um mundo não mais sob a hegemonia estadunidense.
Ouça parte da entrevista:

